A capsulite adesiva, popularmente conhecida como ombro congelado (frozen shoulder), é uma condição caracterizada por:
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Dor no ombro
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Limitação global da mobilidade glenoumeral
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Restrição tanto da movimentação ativa quanto passiva
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Fibrose progressiva da cápsula articular
Enquanto o termo frozen shoulder representa a manifestação clínica, adhesive capsulitis descreve a alteração patológica da cápsula.
Epidemiologia da Capsulite Adesiva
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Prevalência: 2% a 5% da população geral
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Pico de incidência: Entre 40 e 65 anos de idade
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Gênero: Mais frequente em mulheres do que em homens
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Acometimento bilateral: Cerca de 10% a 20% dos casos, geralmente ocorrendo em momentos diferentes.
Portanto, vale destacar que a recorrência no mesmo ombro é incomum.
Classificação do Ombro Congelado
A condição divide-se em dois tipos principais:
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Primária (idiopática): Sem causa identificável.
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Secundária: Relacionada a trauma, cirurgia, imobilização prolongada ou doenças sistêmicas.
Nesse sentido, os casos secundários — principalmente em pacientes com diabetes — apresentam pior prognóstico.
História Natural da Capsulite Adesiva
Tradicionalmente, a evolução desta doença do ombro divide-se em três fases:
1. Freezing (Fase dolorosa)
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Duração: 2 a 9 meses
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Características: Dor progressiva, dor intensa noturna, dor no final da amplitude de movimento e perda progressiva de mobilidade.
2. Frozen (Ombro Congelado)
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Duração: 4 a 12 meses
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Características: Diminuição da dor, rigidez importante e limitação funcional predominante.
3. Thawing (Descongelando)
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Duração: 5 a 24 meses
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Características: Melhora gradual, recuperação lenta da amplitude e melhora progressiva da força.
Contudo, na prática médica, observa-se que essas fases frequentemente se sobrepõem e nem sempre seguem essa sequência clássica de forma rígida.
Fisiopatologia da Capsulite Adesiva
O processo patológico envolve uma série de alterações estruturais:
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Inflamação sinovial
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Ativação de fibroblastos
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Espessamento capsular
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Deposição de colágeno e fibrose
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Redução do volume articular
Como consequência, as regiões mais acometidas são o intervalo rotador, o ligamento coracoumeral e o recesso axilar. Logo, a consequência direta dessas alterações é a perda global da mobilidade, com destaque para a rotação externa.
Fatores de Risco para Capsulite Adesiva
Diabetes
Primeiramente, o diabetes é o principal fator de risco para o problema do ombro congelado. Nos pacientes diabéticos, observa-se:
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Prevalência de 10% a 30%
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Risco 3 a 5 vezes maior
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Maior bilateralidade e gravidade da doença
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Pior resposta terapêutica e maior chance de sequelas
Além disso, o risco aumenta proporcionalmente com a maior duração do diabetes e a presença de complicações microvasculares.
Outros Fatores Relevantes
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Tireoide: Especialmente o hipotireoidismo, que apresenta risco cerca de 1,5 a 2 vezes maior.
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Outras condições: Cirurgia prévia do ombro, trauma, imobilização, doenças neurológicas, doenças cardiovasculares e depressão (com base em associações observacionais).
Quadro Clínico do Ombro Congelado
Dor
A dor apresenta início insidioso e caráter profundo. Ademais, é tipicamente pior à noite, a ponto de dificultar que o paciente durma sobre o ombro afetado.
Por outro lado, esse início gradual ao longo de semanas ou meses distingue a capsulite adesiva das roturas agudas do manguito rotador ou da tendinite calcificada, que costumam se apresentar de forma mais abrupta.
Limitação Funcional
Desse modo, as dificuldades do dia a dia envolvem principalmente ações como:
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Elevar o braço
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Pentear o cabelo e vestir roupas
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Colocar a mão nas costas
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Fechar o sutiã ou colocar a camisa para dentro da calça
Exame Físico na Capsulite Adesiva
Nesse contexto, o principal achado no exame físico é a restrição global da mobilidade passiva.
Assim, a ordem típica de comprometimento funcional costuma ser:
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Rotação externa
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Abdução
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Rotação interna
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Flexão anterior
Na prática, a rotação externa costuma ficar abaixo de 25° a 30° (quando o normal seria de 60° a 90°), enquanto a abdução geralmente restringe-se a menos de 90° a 120°.
Por conseguinte, esse é o principal elemento para diferenciar a capsulite da lesão do manguito rotador, condição em que a mobilidade passiva costuma estar preservada.
Diagnóstico da Capsulite Adesiva
Em suma, o diagnóstico da capsulite adesiva é essencialmente clínico. Ele baseia-se em:
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História clínica típica
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Perda global da mobilidade passiva
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Exclusão de outras patologias
Exames de Imagem
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Radiografia: Deve ser solicitada para excluir artrose, fraturas, tendinite calcária e luxações. Contudo, na capsulite pura, a radiografia geralmente apresenta-se normal.
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Ressonância Magnética: Não é obrigatória para o diagnóstico. Em vez disso, serve basicamente para excluir diagnósticos diferenciais, como ruptura do manguito, lesão labral ou artrose. Embora possa mostrar espessamento capsular, espessamento do ligamento coracoumeral e obliteração do recesso axilar, esses achados não se correlacionam bem com a gravidade clínica.
Tratamento da Capsulite Adesiva
Acima de tudo, o tratamento da capsulite adesiva é predominantemente não cirúrgico. A seleção da conduta ideal é guiada pelo estágio da doença, gravidade dos sintomas, comorbidades do paciente e objetivos funcionais.
1. Educação do Paciente
É fundamental que o paciente compreenda que a melhora pode levar muitos meses, que a recuperação nem sempre é completa e que, além disso, a condição poderá ocorrer no outro ombro futuramente.
2. Anti-inflamatórios
Podem auxiliar no controle dos sintomas, embora a evidência seja limitada quando utilizados de forma isolada.
3. Corticoide Oral
Pode melhorar temporariamente a dor e a função. No entanto, o efeito é passageiro, há maior risco de efeitos adversos e, por fim, exige atenção especial em pacientes diabéticos devido ao impacto na glicemia.
4. Infiltração Intra-articular
Por sua vez, a infiltração é considerada uma das intervenções mais eficazes, principalmente na fase freezing (dolorosa).
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Benefícios: Redução importante da dor, melhora funcional e aumento da mobilidade.
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Resultados: A melhora costuma ser observada em 4 a 6 semanas, podendo persistir por até 24 semanas. Quando associada à fisioterapia, apresenta resultados superiores a qualquer uma das abordagens isoladamente.
Ademais, o manejo técnico da infiltração traz importantes ponderações:
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Doses menores (10 mg) podem ser tão ou mais eficazes que doses maiores (40 mg).
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O acesso pelo intervalo rotador pode apresentar melhores resultados.
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O ultrassom aumenta a precisão do procedimento, mas não demonstrou superioridade clínica consistente nos desfechos a longo prazo.
5. Fisioterapia para Ombro Congelado
Por outro lado, a fisioterapia permaneceu como um dos pilares do tratamento conservador. Inclui educação, exercícios domiciliares, mobilizações articulares e alongamentos graduais.
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Exercícios recomendados: Exercícios pendulares, escalada na parede, alongamento com toalha, uso de bastão para rotação externa e flexão, além de exercícios em mesa deslizante.
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Cuidados essenciais: Deve-se evitar alongamentos excessivamente dolorosos, pois podem piorar a irritabilidade da cápsula articular. Alongamentos muito agressivos mostram-se inferiores aos mais graduais.
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Técnicas de mobilização: Há boas evidências para o método Maitland, mobilizações angulares e mobilizações combinadas. Especificamente, a mobilização posterior melhora bastante a rotação externa.
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PNF (Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva): Padrões de movimentos diagonais e espirais promovem ganho funcional de mobilidade, com evidências de melhor redução da dor e melhora funcional em comparação aos alongamentos convencionais.
6. Observação (Watchful Waiting)
Estudos clínicos na área demonstram resultados funcionais semelhantes entre a fisioterapia estruturada e a simples observação clínica. Contudo, a observação apresenta menor custo, o que reforça a necessidade absoluta de individualizar o tratamento para cada perfil de paciente.
7. Hidrodistensão
Consiste na injeção intra-articular de soro fisiológico associado a corticoide com o objetivo de distender mecanicamente a cápsula retraída.
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Resultados: Melhora significativa da dor, da função e da amplitude de movimento. Desse modo, é considerada uma excelente alternativa para pacientes selecionados.
8. Terapias Emergentes
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Ondas de Choque (ESWT): Mostraram excelente melhora funcional. São especialmente interessantes no manejo de pacientes diabéticos por permitirem evitar o uso de corticoides.
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Outras modalidades: Laser e bloqueio do nervo supraescapular apresentam evidências favoráveis, ao passo que o ultrassom terapêutico não demonstra evidência consistente de eficácia.
Tratamento Cirúrgico do Ombro Congelado
O tratamento cirúrgico é indicado após aproximadamente 6 a 12 meses de tratamento conservador sem resposta satisfatória (embora algumas referências sugiram aguardar o intervalo de 9 a 12 meses).
As principais opções são:
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Manipulação sob anestesia (MUA): Ruptura mecânica da cápsula por meio de manobras passivas.
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Liberação capsular artroscópica: Secção cirúrgica direta da cápsula retraída.
O Estudo UK FROST
Nesse contexto, um importante ensaio clínico randomizado (UK FROST), envolvendo 503 pacientes, comparou a fisioterapia, a manipulação sob anestesia e a artroscopia.
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Resultado: Todos os grupos melhoraram significativamente após 12 meses, sem diferenças clinicamente relevantes entre as estratégias ao final do período.
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Custo-efetividade: A manipulação sob anestesia destacou-se como a estratégia mais custo-efetiva. Por sua vez, a artroscopia apresentou maior custo e risco cirúrgico, embora traga a vantagem de permitir o tratamento de lesões intra-articulares concomitantes.
Tratamento Conforme a Fase da Doença
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Fase Freezing: Priorizar a infiltração intra-articular, o controle rigoroso da dor e a fisioterapia leve.
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Fase Frozen: Priorizar o ganho de amplitude de movimento, a mobilização articular e os alongamentos graduais.
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Fase Thawing: Priorizar o fortalecimento muscular e a recuperação funcional plena.
Atenção Especial aos Pacientes Diabéticos com Capsulite Adesiva
Os pacientes com diabetes representam um grupo clínico diferenciado. Consequentemente, eles apresentam:
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Doença mais grave e de pior prognóstico
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Maior taxa de recorrência bilateral
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Resposta terapêutica menos favorável aos tratamentos convencionais
Portanto, deve-se sempre ponderar o impacto sistêmico do corticoide sobre a glicemia e priorizar alternativas quando oportuno, como as ondas de choque ou outras modalidades não esteroides.
Principais Conclusões
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Primeiramente, a capsulite adesiva não deve mais ser encarada como uma doença inevitavelmente autolimitada que dispensa intervenção ativa.
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O diagnóstico é essencialmente clínico, sendo a perda global da mobilidade passiva (sobretudo da rotação externa) o seu principal marco.
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A ressonância magnética não deve ser solicitada de rotina, tendo utilidade quase restrita à exclusão de diagnósticos diferenciais.
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A infiltração intra-articular de corticoide — principalmente nas fases iniciais e combinada com a fisioterapia — oferece o melhor benefício para o binômio dor e função.
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A hidrodistensão configura-se como uma opção altamente eficaz para pacientes selecionados.
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A cirurgia deve ser reservada estritamente aos casos refratários, visto que os resultados a longo prazo equiparam-se entre fisioterapia, manipulação e liberação artroscópica.
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Por fim, pacientes diabéticos exigem manejo individualizado devido às complicações associadas ao ombro congelado.
Referência
ACHILOVA, Feyza et al. Frozen shoulder: Diagnosis and treatment of adhesive capsulitis. .


