Em 2026, o American College of Rheumatology (ACR), em parceria com a Spondylitis Association of America (SAA) e a Spondyloarthritis Research and Treatment Network (SPARTAN), publicou uma importante atualização das recomendações para o manejo da espondiloartrite axial (axSpA).
Além de revisar as orientações para adultos, a diretriz incluiu, pela primeira vez, recomendações específicas para crianças e adolescentes. Dessa forma, o documento acompanha a evolução do conhecimento sobre a doença e responde à necessidade de orientações mais abrangentes.
A nova diretriz reúne evidências recentes sobre diagnóstico, monitoramento e tratamento farmacológico e não farmacológico. Além disso, aborda o manejo das manifestações extra-articulares, a saúde óssea, a dor nociplástica, os exames de imagem e as estratégias de redução terapêutica em pacientes com doença controlada.
Neste artigo, apresentamos uma revisão prática das recomendações para adultos com espondiloartrite axial. Também destacamos as principais mudanças em relação às versões anteriores. Além disso, discutimos sua aplicação na prática clínica.
Sempre que pertinente, acrescentamos comentários baseados na literatura e na experiência clínica. Assim, buscamos facilitar a interpretação das recomendações e sua implementação no dia a dia do reumatologista.
Entretanto, é importante destacar que uma parcela significativa das recomendações ainda se apoia em evidências de baixa ou muito baixa qualidade. Essa limitação reflete as dificuldades metodológicas dos estudos em espondiloartrite axial. Além disso, reforça que essas recomendações devem orientar a tomada de decisão, sem substituir o julgamento clínico.
Por esse motivo, o manejo da doença continua exigindo uma abordagem individualizada. O reumatologista deve considerar o contexto clínico de cada paciente. Também deve avaliar o padrão de acometimento, as manifestações extra-articulares, as comorbidades e as preferências do paciente. Por fim, a tomada de decisão compartilhada permanece um dos princípios centrais da abordagem moderna da axSpA.
Exames de imagem na suspeita e no acompanhamento da espondiloartrite axial
Os exames de imagem continuam desempenhando papel fundamental no diagnóstico e no acompanhamento da espondiloartrite axial (axSpA). Além de reforçar conceitos já consolidados, a atualização do ACR 2026 apresenta recomendações que ajudam a evitar exames desnecessários e a utilizar cada modalidade de forma mais racional.
Radiografia continua sendo o exame inicial
Nos adultos com suspeita de axSpA, a diretriz recomenda, de forma condicional, a radiografia da pelve em incidência anteroposterior (AP) como primeiro exame de imagem.
Além disso, não há benefício na solicitação de incidências especiais das articulações sacroilíacas. Quando a técnica é adequada, a radiografia AP da pelve oferece informações suficientes para a avaliação inicial.
Se a radiografia for normal ou inconclusiva, mas a suspeita clínica permanecer elevada, o próximo passo deve ser a ressonância magnética das articulações sacroilíacas, preferencialmente sem contraste. Na maioria dos casos, as sequências STIR e T1 identificam adequadamente a atividade inflamatória e as lesões estruturais.
Além disso, o exame deve seguir um protocolo específico para avaliação das sacroilíacas. Esse protocolo deve incluir cortes coronais oblíquos e axiais oblíquos. Dessa forma, aumenta-se a sensibilidade para detectar as alterações características da doença.
Ressonância magnética é superior à tomografia e à cintilografia
Sempre que houver necessidade de uma avaliação complementar, o médico deve priorizar a ressonância magnética em vez da tomografia computadorizada ou da cintilografia óssea.
Por outro lado, a tomografia pode ser útil em situações específicas, principalmente para caracterizar alterações estruturais, como:
- erosões;
- esclerose;
- anquilose.
Entretanto, a tomografia não identifica inflamação ativa e expõe o paciente à radiação. Por esse motivo, seu uso não deve fazer parte da rotina.
Da mesma forma, a diretriz não recomenda o PET-CT para investigar a espondiloartrite axial.
A importância da padronização dos laudos
Outro aspecto enfatizado pela diretriz é a padronização dos laudos de radiografia e ressonância magnética.
Idealmente, radiologistas com experiência em doenças inflamatórias do esqueleto axial devem interpretar os exames. Além disso, eles devem descrever de forma sistemática a presença de:
- edema de medula óssea;
- erosões;
- metaplasia gordurosa;
- backfill;
- anquilose;
- localização e extensão das lesões.
Essa descrição detalhada facilita o diagnóstico. Além disso, ajuda a diferenciar alterações inflamatórias de alterações degenerativas ou mecânicas.
Radiografias seriadas não devem fazer parte da rotina
Uma das mudanças mais relevantes desta atualização é a recomendação contra a realização rotineira de radiografias seriadas da coluna em intervalos fixos, como a cada dois anos.
Embora diversos estudos observacionais tenham utilizado essa estratégia, atualmente não existem evidências de que o monitoramento radiográfico periódico modifique a conduta clínica ou melhore os desfechos dos pacientes.
Quando solicitar ressonância magnética durante o acompanhamento?
Nos pacientes em uso de terapias avançadas, como biológicos (bDMARDs) ou inibidores de JAK (tsDMARDs), a diretriz recomenda fortemente a ressonância magnética da coluna ou das articulações sacroilíacas quando houver dúvida sobre a atividade inflamatória da doença.
Nessas situações, a ressonância pode diferenciar inflamação persistente de outras causas de dor. Consequentemente, fornece informações que ajudam na tomada de decisões terapêuticas mais precisas.
Comentário Reumato Review
Esta atualização reforça uma mudança importante na prática clínica: o exame de imagem deve responder a uma pergunta clínica específica.
Na prática, a estratégia recomendada pode ser resumida da seguinte forma:
- Suspeita clínica de axSpA → Radiografia AP da pelve.
- Radiografia negativa ou inconclusiva → Ressonância magnética das articulações sacroilíacas.
- Persistência de dúvida sobre a atividade da doença durante o tratamento → Ressonância magnética.
- Monitoramento de rotina → Evitar radiografias seriadas na ausência de indicação clínica específica.
Dessa forma, essa estratégia reduz exames desnecessários, evita exposição repetida à radiação e direciona o uso da ressonância magnética para situações em que ela realmente influencia a tomada de decisão clínica.
Orientações gerais no manejo da espondiloartrite axial
Além das recomendações sobre o tratamento farmacológico, a atualização do ACR 2026 reforça vários aspectos do cuidado global na espondiloartrite axial.
Embora muitas recomendações se apoiem em evidências de baixa qualidade, elas refletem princípios importantes da prática clínica. Além disso, mostram que o manejo da axSpA vai além do controle da inflamação.
Monitorização da atividade da doença
A diretriz recomenda avaliar rotineiramente a atividade da doença com índices padronizados. Dessa forma, o reumatologista consegue acompanhar a evolução clínica de maneira mais objetiva ao longo do tempo.
Entre os instrumentos disponíveis, o ASDAS ocupa a posição de índice preferencial. Isso ocorre porque ele reúne medidas clínicas e marcadores inflamatórios. Por outro lado, o BASDAI permanece como uma alternativa amplamente utilizada na prática clínica.
Além dos índices clínicos, a diretriz recomenda o monitoramento periódico da proteína C reativa (PCR) ou da velocidade de hemossedimentação (VHS). Esses marcadores podem ajudar na avaliação da atividade inflamatória, principalmente quando o médico os interpreta em conjunto com os achados clínicos.
Quando houver dúvida sobre a atividade da doença em pacientes que usam terapias avançadas, como bDMARD ou tsDMARD, o médico pode solicitar uma ressonância magnética. Nesse contexto, o exame ajuda a esclarecer se existe inflamação persistente.
Educação do paciente
A educação do paciente continua sendo parte fundamental do tratamento.
Pacientes bem informados tendem a compreender melhor a doença e a seguir o tratamento com maior consistência. Além disso, conseguem reconhecer precocemente sinais de atividade ou manifestações extra-articulares.
Peso corporal e risco cardiovascular
A atualização também reforça a importância de manter um peso adequado.
A obesidade se associa a:
- maior atividade da doença;
- pior qualidade de vida;
- menor resposta aos inibidores do TNF.
Além disso, o médico deve avaliar periodicamente o risco cardiovascular. Pacientes com doenças inflamatórias crônicas apresentam maior risco de eventos cardiovasculares.
Por outro lado, a diretriz não recomenda o rastreamento rotineiro de distúrbios de condução cardíaca com eletrocardiograma em pacientes assintomáticos. Da mesma forma, não recomenda o rastreamento de valvopatias com ecocardiograma nessa população.
Saúde mental
A diretriz recomenda investigar regularmente a presença de depressão durante o acompanhamento.
A dor crônica, a limitação funcional e o impacto na qualidade de vida aumentam a frequência dos transtornos de humor nesses pacientes. Além disso, esses fatores podem influenciar diretamente a percepção da atividade da doença e a resposta ao tratamento.
Trabalho e atividade esportiva
O médico deve individualizar as orientações relacionadas ao trabalho.
Atividades físicas intensas ou trabalhos que exigem esforço importante não precisam ser automaticamente desencorajados. Entretanto, alguns pacientes podem precisar de adaptações. Isso ocorre principalmente na presença de doença ativa, limitação funcional importante ou dano estrutural avançado.
Da mesma forma, pacientes que praticam esportes de contato precisam receber orientações sobre o maior risco de lesões. Esse cuidado se torna ainda mais importante quando existe anquilose extensa da coluna.
Terapias sem benefício comprovado
A atualização mantém uma posição contrária ao uso rotineiro de intervenções sem evidências consistentes de benefício na axSpA.
A diretriz não recomenda:
- terapias direcionadas ao microbioma;
- terapias alternativas sem comprovação científica;
- canabinoides para o controle da doença.
Por outro lado, o médico pode considerar a acupuntura como terapia adjuvante para o alívio sintomático. Essa opção pode ser útil, principalmente, em pacientes com dor persistente. Entretanto, a acupuntura não deve substituir os tratamentos baseados em evidências.
Comentário Reumato Review
Talvez a principal mensagem desta seção seja que o acompanhamento da espondiloartrite axial precisa ser multidimensional.
Além de controlar a inflamação, o reumatologista deve monitorar de forma sistemática:
- atividade da doença, por meio do ASDAS ou BASDAI;
- marcadores inflamatórios;
- peso corporal;
- risco cardiovascular;
- saúde mental;
- impacto funcional e ocupacional.
Dessa forma, o acompanhamento estruturado ajuda a identificar fatores que influenciam a qualidade de vida e a resposta ao tratamento. Muitas vezes, esses fatores exercem impacto maior do que a própria atividade inflamatória.
Manejo das manifestações extra-articulares
As manifestações extra-articulares fazem parte do espectro clínico da espondiloartrite axial e podem exercer impacto significativo na qualidade de vida e nas decisões terapêuticas. Nesta atualização, o ACR reforça a importância do rastreamento sistemático dessas manifestações e da escolha individualizada do tratamento conforme o fenótipo de cada paciente.
Uveíte: reconhecer precocemente faz diferença
A uveíte anterior aguda é a manifestação extra-articular mais frequente da espondiloartrite axial. Por esse motivo, a diretriz recomenda que todos os pacientes sejam orientados a reconhecer seus principais sintomas, permitindo que procurem atendimento oftalmológico imediatamente quando necessário.
Os sinais de alerta incluem:
-
olho vermelho, geralmente unilateral;
-
dor ocular;
-
fotofobia;
-
visão borrada.
Além da orientação ao paciente, recomenda-se que o reumatologista investigue rotineiramente, durante as consultas, a ocorrência de episódios prévios de uveíte.
Por outro lado, não há recomendação para encaminhamento rotineiro ao oftalmologista de pacientes assintomáticos, uma vez que não existem evidências de benefício nessa estratégia.
Como conduzir pacientes com uveíte recorrente?
Nos pacientes com episódios recorrentes de uveíte, algumas recomendações merecem destaque.
A diretriz sugere que esses pacientes possam manter colírios de corticosteroide disponíveis para uso imediato quando orientados pelo oftalmologista, reduzindo o tempo até o início do tratamento.
Outro ponto importante é a escolha da terapia biológica. Nesses pacientes, os anticorpos monoclonais anti-TNF são preferidos, devido à maior eficácia na prevenção de recorrências de uveíte quando comparados a outras opções terapêuticas.
Caso a uveíte ocorra durante o uso de um anti-TNF monoclonal, a recomendação não é substituir imediatamente o biológico. A diretriz sugere manter o tratamento sistêmico e tratar a uveíte de forma específica, utilizando terapia tópica e, quando necessário, associando um DMARD sintético, antes de considerar a troca do mecanismo de ação.
Doença inflamatória intestinal
A associação entre espondiloartrite axial e doença inflamatória intestinal (DII) é bem estabelecida. Por isso, recomenda-se que todos os pacientes sejam periodicamente questionados sobre sintomas sugestivos de acometimento intestinal.
Durante a consulta, é importante investigar a presença de:
-
diarreia crônica;
-
sangue nas fezes;
-
dor abdominal;
-
perda de peso.
A diretriz não recomenda a solicitação rotineira de calprotectina fecal em pacientes assintomáticos. O exame deve ser reservado para situações em que exista suspeita clínica de doença inflamatória intestinal.
Quando a DII está presente, algumas implicações terapêuticas tornam-se relevantes. O uso contínuo de anti-inflamatórios não esteroidais deve ser evitado, devido ao potencial risco de exacerbação da doença intestinal. Além disso, a presença de DII deve influenciar a escolha da terapia biológica, priorizando medicamentos com eficácia comprovada para ambas as doenças.
Psoríase
A pele também deve fazer parte da avaliação clínica de rotina.
A diretriz recomenda que o reumatologista pesquise ativamente a presença de psoríase em todos os pacientes com axSpA, mesmo quando não houver diagnóstico prévio.
Nos pacientes com psoríase ativa, a escolha do tratamento deve considerar a eficácia sobre as manifestações cutâneas, favorecendo medicamentos capazes de controlar simultaneamente o acometimento axial e a doença de pele.
Outro aspecto abordado é a psoríase paradoxal induzida por anti-TNF. Nessa situação, a recomendação inicial é manter o tratamento biológico e tratar a manifestação cutânea com medidas específicas, como terapia tópica, fototerapia ou associação de um DMARD sintético. A troca imediata do biológico não é recomendada como primeira estratégia.
Comentário Reumato Review
As manifestações extra-articulares frequentemente influenciam mais a escolha do tratamento do que a própria atividade axial.
Na prática, a seleção do biológico deve considerar não apenas a coluna e as articulações, mas também o perfil clínico global do paciente.
De forma simplificada:
-
Uveíte recorrente: preferir anticorpos monoclonais anti-TNF.
-
Doença inflamatória intestinal: evitar AINEs contínuos e escolher terapias eficazes para ambas as doenças.
-
Psoríase significativa: considerar medicamentos com maior eficácia cutânea.
Essa abordagem integrada permite tratar diferentes manifestações da doença com uma única estratégia terapêutica, reduzindo a necessidade de múltiplos tratamentos e proporcionando um cuidado mais individualizado.
Dor nociplástica na espondiloartrite axial
Um dos pontos mais relevantes da atualização do ACR 2026 é o reconhecimento da dor nociplástica. Esse mecanismo aparece com frequência em pacientes com espondiloartrite axial.
Embora a inflamação continue sendo o principal mecanismo fisiopatológico da doença, muitos pacientes permanecem sintomáticos mesmo sem atividade inflamatória significativa.
Nesses casos, a dor persistente pode estar relacionada a alterações no processamento central da dor. Dessa forma, o quadro passa a apresentar um componente nociplástico.
Esse conceito traz implicações importantes para a prática clínica. Afinal, nem toda dor em um paciente com axSpA indica inflamação ativa.
Quando suspeitar de dor nociplástica?
A diretriz recomenda considerar esse mecanismo durante a avaliação clínica. Essa hipótese ganha importância principalmente quando a dor persiste apesar do controle adequado da inflamação.
Além disso, diversas condições podem coexistir com a espondiloartrite axial e contribuir para o quadro, entre elas:
- fibromialgia;
- sensibilização central;
- ansiedade;
- depressão;
- distúrbios do sono.
Nessas situações, o aumento da imunossupressão raramente melhora os sintomas de forma significativa. Isso ocorre porque a inflamação não representa o principal mecanismo responsável pela dor.
Tratamento
Quando houver suspeita de dor nociplástica, o tratamento deve atuar sobre os mecanismos envolvidos no processamento da dor.
Nesse contexto, a diretriz sugere considerar:
- gabapentinoides;
- inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina;
- relaxantes musculares, em situações selecionadas;
- terapia cognitivo-comportamental.
Além disso, as medidas não farmacológicas continuam exercendo papel fundamental no manejo. Entre elas, destacam-se a atividade física regular, a educação em dor e a melhora da qualidade do sono.
Por outro lado, a atualização não recomenda o uso de opioides. Essa orientação considera a ausência de benefício consistente em longo prazo. Além disso, leva em conta o risco de dependência e de eventos adversos.
Dor não é sinônimo de inflamação
A principal mensagem desta seção é a necessidade de diferenciar atividade inflamatória de mecanismos centrais de dor.
Quando os exames laboratoriais estão normais, a persistência da dor exige uma avaliação mais ampla. O mesmo vale na ausência de sinovite, entesite ou sacroileíte ativa na ressonância magnética.
Portanto, o médico deve investigar outros mecanismos antes de intensificar o tratamento.
Reconhecer a dor nociplástica evita trocas desnecessárias de medicamentos. Além disso, reduz a exposição do paciente a terapias imunossupressoras sem expectativa real de benefício.
Comentário Reumato Review
Durante muitos anos, os médicos interpretaram a persistência da dor quase exclusivamente como falha do tratamento anti-inflamatório. Entretanto, hoje sabemos que essa visão é incompleta.
Uma parcela significativa dos pacientes apresenta mecanismos adicionais de dor. Entre eles, destacam-se a sensibilização central e a fibromialgia associada.
Nesses casos, o aumento da imunossupressão dificilmente modificará os sintomas.
Na prática, o médico deve fazer uma pergunta antes de intensificar o tratamento:
A dor reflete inflamação ativa ou outro mecanismo de dor?
Responder corretamente a essa pergunta pode evitar mudanças terapêuticas desnecessárias. Além disso, ajuda a direcionar o paciente para estratégias com maior probabilidade de sucesso.
Atividade física: um dos pilares do tratamento da espondiloartrite axial
A atividade física continua sendo uma das intervenções não farmacológicas mais importantes no tratamento da espondiloartrite axial. Diferentemente de outras recomendações da diretriz, esta conta com um volume consistente de evidências que demonstram benefícios sobre dor, rigidez, capacidade funcional e qualidade de vida.
Além disso, a atualização do ACR 2026 reforça que todos os adultos com axSpA ativa devem participar de um programa estruturado e supervisionado de exercícios. Sempre que possível, fisioterapeutas ou outros profissionais capacitados devem conduzir esse programa.
Mais do que orientar o paciente a “fazer exercícios”, a diretriz destaca a importância de um programa organizado, individualizado e adaptado às limitações e necessidades de cada paciente.
Exercícios ativos devem ser priorizados
Entre as principais recomendações, a diretriz prioriza as intervenções fisioterapêuticas ativas em relação às terapias passivas.
Recursos como calor, ultrassom terapêutico, eletroterapia e massagens podem proporcionar alívio temporário dos sintomas em alguns pacientes. Entretanto, esses recursos não devem substituir os exercícios ativos. Afinal, os exercícios apresentam evidências mais robustas de benefício funcional e de longo prazo.
Assim, a fisioterapia deve promover autonomia, melhorar a mobilidade e incentivar a prática regular de atividade física.
Quais exercícios são recomendados?
A diretriz recomenda que os programas de exercício combinem diferentes modalidades, incluindo:
- exercícios aeróbicos;
- exercícios de fortalecimento muscular;
- alongamentos;
- exercícios de mobilidade da coluna e das articulações;
- exercícios respiratórios.
Essa combinação melhora a flexibilidade, preserva a amplitude de movimento, aumenta a capacidade funcional e reduz o impacto da doença sobre as atividades diárias.
Além do programa supervisionado, os pacientes devem incorporar a atividade física regular à rotina. Dessa forma, conseguem manter os benefícios obtidos ao longo do tempo.
Manipulação da coluna não é recomendada
A atualização também mantém uma recomendação importante sobre as terapias manipulativas.
A diretriz não recomenda a manipulação espinhal (quiropraxia) em pacientes com espondiloartrite axial.
Essa orientação ganha ainda mais importância nos pacientes com doença avançada, sindesmófitos extensos ou anquilose. Nesses casos, a manipulação pode aumentar o risco de complicações, incluindo fraturas vertebrais.
Exercício faz parte do tratamento
Embora os avanços terapêuticos tenham ampliado significativamente as opções farmacológicas disponíveis, a atividade física continua sendo um componente essencial do tratamento da axSpA.
Mesmo quando o paciente apresenta excelente resposta aos medicamentos, manter um programa regular de exercícios continua sendo fundamental. Essa estratégia ajuda a preservar a mobilidade, a força muscular, a função física e a qualidade de vida.
Comentário Reumato Review
Talvez uma das mensagens mais importantes desta diretriz seja que o exercício não deve ser encarado apenas como um complemento do tratamento. Na prática, ele faz parte do próprio tratamento.
O manejo ideal combina o controle da inflamação com um programa estruturado de exercícios. Enquanto o biológico reduz a atividade inflamatória, a atividade física ajuda a preservar a mobilidade, a capacidade funcional e a qualidade de vida.
Além disso, a diretriz reforça outra mudança de paradigma importante. Nem toda fisioterapia produz os mesmos resultados. Atualmente, sabemos que programas ativos, individualizados e supervisionados oferecem benefícios superiores aos das modalidades passivas. Por esse motivo, eles devem ser priorizados sempre que possível.
Por fim, pacientes com doença estrutural avançada exigem atenção especial. Nesses casos, a manipulação da coluna deve ser evitada devido ao maior risco de lesões. Assim, torna-se ainda mais importante oferecer programas de exercícios seguros e adaptados à condição clínica de cada indivíduo.
Manejo cirúrgico e perioperatório na espondiloartrite axial
Embora a maioria dos pacientes com espondiloartrite axial receba tratamento clínico, alguns desenvolvem complicações estruturais que exigem intervenção cirúrgica.
Nesse contexto, a atualização do ACR 2026 aborda situações específicas relacionadas ao período perioperatório, à artroplastia total do quadril e às deformidades graves da coluna.
Cuidados durante a anestesia em pacientes com comprometimento cervical
Pacientes com acometimento da coluna cervical apresentam maior risco de dificuldades durante a intubação orotraqueal. Esse risco aumenta principalmente quando existe limitação importante da mobilidade cervical ou anquilose.
Por esse motivo, a diretriz recomenda que todo paciente com comprometimento cervical informe previamente essa condição ao anestesiologista antes de receber anestesia geral.
Além disso, o planejamento da via aérea deve integrar a avaliação pré-operatória. Dessa forma, a equipe reduz o risco de complicações durante o procedimento.
Também é importante orientar o próprio paciente sobre esse risco. Essa orientação ganha ainda mais importância quando ele precisar realizar cirurgias em outras especialidades.
Artroplastia total do quadril
O acometimento do quadril representa uma das manifestações estruturais mais incapacitantes da espondiloartrite axial. Além disso, costuma estar associado à pior qualidade de vida, principalmente em pacientes jovens.
Quando ocorre destruição articular avançada, a artroplastia total do quadril proporciona melhora significativa da dor, recuperação funcional e ganho importante de qualidade de vida. Por isso, a diretriz recomenda esse procedimento nesses casos.
Além disso, a diretriz sugere o uso de celecoxibe no pós-operatório como estratégia para reduzir o risco de ossificação heterotópica. Essa complicação ocorre com relativa frequência após esse tipo de procedimento.
Por outro lado, a diretriz não recomenda a radioterapia local para prevenir a ossificação heterotópica. Embora alguns centros tenham utilizado essa estratégia no passado, atualmente não existem evidências suficientes para justificar seu uso rotineiro.
Osteotomia corretiva da coluna
Nos pacientes com cifose grave decorrente da progressão da doença, a osteotomia corretiva da coluna pode ser considerada em situações selecionadas.
Esse procedimento é complexo e deve ser reservado para casos de deformidade importante. Em geral, esses pacientes apresentam comprometimento significativo da postura, do equilíbrio corporal ou da capacidade funcional.
Além disso, a indicação deve ser individualizada. Sempre que possível, centros com experiência no manejo cirúrgico dessas deformidades devem realizar o procedimento.
Comentário Reumato Review
Os avanços no tratamento farmacológico reduziram significativamente a necessidade de intervenções cirúrgicas em pacientes com espondiloartrite axial.
Entretanto, complicações estruturais ainda podem ocorrer. Esse cenário é mais frequente em pacientes com diagnóstico tardio ou doença de longa duração.
Na prática, duas recomendações merecem atenção especial.
A primeira é orientar pacientes com acometimento cervical sobre os riscos relacionados à intubação. Além disso, essa informação deve ser compartilhada sempre que houver necessidade de anestesia geral.
A segunda envolve o acometimento do quadril, que continua sendo uma importante causa de incapacidade funcional. Nesses casos, a artroplastia total do quadril permanece como uma intervenção altamente eficaz. Quando indicada no momento adequado, ela proporciona melhora substancial da dor, da função e da qualidade de vida.
Manejo da saúde óssea na espondiloartrite axial
A atualização do ACR 2026 dedica atenção especial à saúde óssea.
Embora a espondiloartrite axial seja tradicionalmente associada à formação de osso novo e ao desenvolvimento de sindesmófitos, pacientes com axSpA também apresentam maior risco de osteopenia e osteoporose.
Esse risco resulta principalmente da inflamação crônica, da redução da mobilidade e de outros fatores associados.
Além disso, a diretriz destaca um aspecto importante. A neoformação óssea característica da doença pode mascarar a perda de massa óssea na coluna vertebral. Como consequência, a interpretação da densitometria torna-se mais desafiadora.
Quando realizar a densitometria óssea?
A diretriz recomenda a realização da densitometria óssea (DXA) em adultos com espondiloartrite axial. Esse método permanece como o exame de escolha para avaliar a densidade mineral óssea e rastrear a osteoporose.
Entretanto, a diretriz não recomenda repetir o exame anualmente de forma rotineira.
Na ausência de situações que justifiquem um acompanhamento mais próximo, intervalos de dois a cinco anos costumam ser suficientes.
Além disso, a diretriz não recomenda o uso rotineiro de marcadores séricos de remodelação óssea. Até o momento, esses marcadores apresentam utilidade clínica limitada no acompanhamento desses pacientes.
Atenção aos pacientes com sindesmófitos
Nos pacientes com sindesmófitos extensos ou fusão da coluna, a neoformação óssea pode dificultar a interpretação da densidade mineral óssea. Como consequência, a densidade vertebral pode ser superestimada.
Por esse motivo, a diretriz sugere incluir a coluna lombar e os quadris na avaliação densitométrica desses pacientes. Dessa forma, torna-se possível realizar uma avaliação mais completa da saúde óssea.
A prevenção de quedas também faz parte do tratamento
Além do rastreamento da osteoporose, a diretriz recomenda avaliar rotineiramente o risco de quedas.
Pacientes com limitação funcional, alterações posturais, redução da mobilidade ou deformidades da coluna apresentam maior risco de quedas. Consequentemente, também apresentam maior risco de fraturas.
Assim, as orientações sobre prevenção de quedas devem integrar o acompanhamento clínico.
Tratamento da osteoporose
Quando o diagnóstico de osteoporose é estabelecido, o paciente deve receber tratamento específico conforme as diretrizes vigentes para osteoporose.
A atualização do ACR não estabelece preferência entre as diferentes classes terapêuticas. Portanto, o tratamento pode incluir medicamentos antirreabsortivos ou agentes anabólicos. A escolha deve considerar o perfil de risco de cada paciente e as recomendações específicas para o manejo da osteoporose.
Comentário Reumato Review
Um dos conceitos mais importantes desta seção é que formação óssea e perda óssea podem coexistir na espondiloartrite axial.
Na prática, não é incomum encontrar pacientes com extensa neoformação óssea na coluna e, ao mesmo tempo, osteoporose significativa. Essa combinação aumenta o risco de fraturas vertebrais.
Outro ponto importante é interpretar a densitometria com cautela em pacientes com doença estrutural avançada.
A presença de sindesmófitos e anquilose pode elevar artificialmente a densidade mineral óssea da coluna. Como consequência, uma osteoporose subjacente pode passar despercebida.
Nesses casos, a avaliação dos quadris torna-se particularmente importante. Além disso, sempre que possível, o médico deve interpretar os resultados à luz do contexto clínico e radiográfico de cada paciente.
Manejo da doença ativa na Espondiloartrite Axial
O tratamento da espondiloartrite axial ativa continua tendo como objetivos controlar a inflamação, aliviar os sintomas, preservar a função física e prevenir o dano estrutural.
Entretanto, a atualização do ACR 2026 introduz mudanças importantes na estratégia terapêutica. Entre elas, destacam-se o papel do treat-to-target, o uso dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e a introdução mais precoce de terapias avançadas em pacientes com pior prognóstico.
O treat-to-target ainda não é recomendado como estratégia formal
Diferentemente do que ocorre na artrite reumatoide, a diretriz sugere não substituir a abordagem baseada na evolução clínica e nos sintomas do paciente por uma estratégia formal de treat-to-target (T2T).
Segundo os autores, ainda faltam evidências que demonstrem melhores desfechos clínicos com uma estratégia estruturada de T2T quando comparada ao ajuste terapêutico guiado pela avaliação clínica.
Entretanto, essa recomendação não significa abandonar o acompanhamento sistemático da atividade da doença.
Pelo contrário, a diretriz continua incentivando o uso de índices padronizados, como ASDAS e BASDAI, para monitorar a resposta ao tratamento.
Quando o médico optar por estabelecer uma meta terapêutica, a diretriz sugere utilizar a baixa atividade da doença como alvo preferencial. Em geral, esse objetivo é mais apropriado do que metas mais rigorosas, como a remissão clínica completa.
Os AINEs permanecem como tratamento inicial
Os anti-inflamatórios não esteroidais continuam ocupando posição central no tratamento inicial da maioria dos pacientes com axSpA ativa.
Além de aliviar a dor e a rigidez, os AINEs permanecem como a principal terapia farmacológica antes da introdução de medicamentos biológicos ou sintéticos direcionados.
A atualização reforça alguns pontos importantes:
- recomenda fortemente os AINEs como primeira linha terapêutica;
- não recomenda associar dois AINEs em pacientes com resposta inadequada;
- diante de falha terapêutica, prefere a troca para outro AINE em vez da manutenção do mesmo medicamento.
Embora existam diferenças entre os diversos AINEs, principalmente em relação ao perfil de segurança gastrointestinal e cardiovascular, a diretriz não considera que exista um medicamento universalmente superior.
Por esse motivo, o médico deve individualizar a escolha de acordo com as características clínicas e as comorbidades de cada paciente.
Outro aspecto importante é a preferência pelo uso contínuo dos AINEs em pacientes com doença ativa. Por outro lado, o uso sob demanda deve ficar reservado para aqueles que alcançarem controle adequado da doença.
Corticoides sistêmicos continuam sem indicação
Assim como nas versões anteriores da diretriz, os glicocorticoides sistêmicos não são recomendados para o tratamento da espondiloartrite axial.
Por outro lado, pacientes com sacroileíte ativa podem se beneficiar da infiltração intra-articular de glicocorticoides em situações selecionadas. Nesses casos, o objetivo é controlar a inflamação localizada.
Terapia avançada mais precoce para pacientes de alto risco
Uma das principais novidades desta atualização é a possibilidade de iniciar um bDMARD ou tsDMARD como tratamento farmacológico inicial em pacientes com alto risco de desfechos desfavoráveis.
Essa recomendação se aplica principalmente aos pacientes que apresentam:
- sindesmófitos;
- proteína C reativa persistentemente elevada.
Nessas situações, a diretriz sugere que o médico não precisa insistir em uma sequência prolongada de tratamentos com AINEs antes de introduzir terapias avançadas.
O racional dessa estratégia é simples. Esses pacientes apresentam maior risco de progressão estrutural e incapacidade funcional. Portanto, eles podem se beneficiar de um controle mais precoce da atividade inflamatória.
Comentário Reumato Review
Talvez a principal mudança conceitual desta atualização seja reconhecer que nem todos os pacientes com espondiloartrite axial devem seguir a mesma sequência terapêutica.
Historicamente, quase todos iniciavam o tratamento com AINEs. Somente após a falha desse tratamento surgia a indicação de medicamentos biológicos.
Entretanto, o guideline de 2026 abre espaço para uma abordagem mais individualizada. Dessa forma, permite considerar terapias avançadas mais precocemente em pacientes com características associadas a pior prognóstico.
Outro ponto importante envolve a posição adotada em relação ao treat-to-target. Diferentemente da artrite reumatoide, ainda faltam estudos robustos que demonstrem benefício clínico com a adoção formal dessa estratégia na axSpA.
Isso não reduz a importância da monitorização regular da atividade da doença. Pelo contrário, reforça que as decisões terapêuticas devem integrar índices objetivos, avaliação clínica e preferências do paciente.
Na prática, a principal mensagem da diretriz é clara: individualizar o tratamento continua sendo mais importante do que seguir algoritmos rígidos.
Manejo farmacológico da espondiloartrite axial
A atualização do ACR 2026 consolida mudanças importantes no tratamento farmacológico da espondiloartrite axial.
Embora o arsenal terapêutico continue crescendo, a diretriz reforça a necessidade de individualizar a escolha do medicamento. Para isso, o médico deve considerar o perfil clínico do paciente, as manifestações extra-articulares, as comorbidades e o perfil de segurança de cada classe terapêutica.
TNF e IL-17 permanecem como as principais opções de primeira linha
Após a falha do tratamento inicial com AINEs, ou como terapia inicial em pacientes selecionados com alto risco de progressão, os inibidores do TNF (TNFi) e os inibidores da IL-17 (IL-17i) representam opções equivalentes de primeira terapia avançada.
A diretriz não estabelece superioridade entre essas duas classes para o acometimento axial.
Por esse motivo, a escolha deve considerar principalmente as características individuais de cada paciente.
Na prática, manifestações extra-articulares, histórico de infecções, doença inflamatória intestinal, psoríase, uveíte e preferências do paciente costumam influenciar mais a decisão terapêutica do que a eficácia sobre a doença axial isoladamente.
Os inibidores de JAK passam a integrar definitivamente o tratamento
Os inibidores de JAK (iJAK), incluindo tofacitinibe e upadacitinibe, passam a ocupar um espaço consolidado no tratamento da axSpA.
Entretanto, a diretriz continua priorizando os TNFi e os IL-17i como primeira escolha. Assim, recomenda reservar os iJAK para situações específicas ou para pacientes com falha às terapias biológicas.
Essa recomendação leva em consideração, principalmente, o maior tempo de experiência clínica com os biológicos e o perfil de segurança atualmente disponível para essas diferentes classes.
DMARDs sintéticos convencionais não tratam a doença axial
A atualização mantém uma recomendação consistente: os DMARDs sintéticos convencionais não devem tratar o acometimento axial.
Essa orientação inclui os seguintes medicamentos:
- metotrexato;
- sulfassalazina;
- hidroxicloroquina;
- azatioprina;
- leflunomida;
- apremilaste.
Embora alguns desses fármacos possam beneficiar pacientes com manifestações periféricas, eles não demonstraram eficácia para controlar a inflamação da coluna ou das articulações sacroilíacas.
Quando utilizar DMARDs sintéticos?
Apesar de não serem indicados para a doença axial, os DMARDs sintéticos continuam tendo espaço no tratamento das manifestações periféricas.
Essa indicação é mais relevante quando o paciente apresenta artrite periférica significativa.
Nessas situações, medicamentos como metotrexato ou sulfassalazina podem integrar a estratégia terapêutica.
Infiltrações continuam sendo uma opção
A diretriz reforça que infiltrações com glicocorticoides continuam sendo uma opção em situações específicas.
O médico pode realizar infiltrações intra-articulares ou periarticulares. Essa estratégia é particularmente útil para controlar artrite periférica, entesites localizadas ou sacroileíte, desde que exista indicação adequada.
Além disso, essa abordagem permite controlar a inflamação de forma localizada. Como consequência, reduz a necessidade de corticosteroides sistêmicos, que continuam sem indicação para o tratamento da axSpA.
Medicamentos que não devem ser utilizados
A atualização também reforça quais terapias não apresentam benefício comprovado para a espondiloartrite axial. Por esse motivo, elas não devem ser utilizadas rotineiramente.
Além de contraindicar o uso de opioides para o controle da dor crônica, a diretriz orienta contra a utilização de:
- bisfosfonatos com o objetivo de tratar a doença axial;
- inibidores da IL-23;
- abatacepte;
- rituximabe;
- tocilizumabe;
- sarilumabe;
- belimumabe;
- anakinra.
Até o momento, essas terapias não demonstraram eficácia consistente para controlar a atividade da doença axial.
Comentário Reumato Review
Talvez a principal mensagem desta seção seja que o tratamento da espondiloartrite axial tornou-se cada vez mais personalizado.
Embora TNFi, IL-17i e iJAK façam parte do mesmo algoritmo terapêutico, eles não são intercambiáveis na prática clínica.
A escolha do medicamento deve considerar o perfil completo do paciente. Isso inclui manifestações extra-articulares, comorbidades, segurança, preferências individuais e experiência do médico.
Outro ponto importante é reforçar um conceito que ainda gera dúvidas no consultório. Metotrexato e sulfassalazina não tratam a doença axial.
Esses medicamentos podem beneficiar pacientes com manifestações periféricas. Entretanto, não devem ser utilizados com a expectativa de controlar a inflamação da coluna ou das articulações sacroilíacas.
Por fim, a diretriz consolida uma mudança observada nos últimos anos. Os inibidores de JAK passam a integrar definitivamente o tratamento da axSpA, ampliando as opções terapêuticas disponíveis. Ainda assim, TNFi e IL-17i permanecem como as estratégias preferenciais para a maioria dos pacientes.
O que fazer quando o primeiro biológico na Espondiloartrite Axial falha?
Apesar dos avanços no tratamento da espondiloartrite axial, parte dos pacientes apresenta resposta insuficiente ou perda de eficácia ao primeiro biológico ou medicamento sintético direcionado.
Nessas situações, a atualização do ACR 2026 traz recomendações importantes para conduzir a falha terapêutica. Além disso, reforça uma abordagem cada vez mais individualizada.
A primeira estratégia é trocar a terapia avançada
Em pacientes com doença ativa apesar do uso do primeiro bDMARD ou tsDMARD, a diretriz sugere substituir a terapia avançada por outro medicamento da mesma categoria, em vez de adicionar um DMARD sintético convencional.
Essa recomendação reflete a ausência de evidências de que medicamentos como metotrexato ou sulfassalazina aumentem a eficácia do tratamento da doença axial quando utilizados em associação.
Priorizar a troca do mecanismo de ação
Uma das principais mudanças desta atualização é a recomendação de priorizar a troca para uma classe terapêutica diferente. Assim, a diretriz desencoraja a simples substituição por outro medicamento da mesma classe.
Na prática, isso significa que:
- pacientes em uso de um TNFi podem migrar para um IL-17i ou um iJAK;
- pacientes em uso de um IL-17i podem migrar para um TNFi ou um iJAK;
- pacientes em uso de um iJAK podem migrar para um TNFi ou um IL-17i.
Essa estratégia busca atuar em diferentes vias inflamatórias quando o bloqueio inicial não produz resposta adequada.
O escalonamento da dose pode ser considerado
Outra novidade desta diretriz é a possibilidade de aumentar a dose de um biológico acima da dose máxima aprovada em pacientes com resposta inadequada.
Entretanto, os autores classificam essa recomendação como baseada em evidências muito limitadas. Por esse motivo, a decisão deve considerar, de forma individualizada, aspectos como segurança, custo e disponibilidade do tratamento.
Na prática clínica, essa estratégia ainda é pouco utilizada. Na maioria dos casos, a troca do mecanismo de ação continua sendo a opção preferida diante da falha terapêutica.
Terapia dupla: uma nova possibilidade para casos selecionados
Talvez a recomendação mais inovadora desta atualização seja o reconhecimento da terapia dupla como uma possibilidade para pacientes altamente selecionados.
Nesses casos, a diretriz sugere considerar a associação entre:
- um bDMARD e um tsDMARD; ou
- dois bDMARDs.
Além da doença axial refratária, essa estratégia também pode ser considerada quando a espondiloartrite axial está associada à doença inflamatória intestinal ou à psoríase, e uma ou ambas permanecem ativas apesar da monoterapia.
Entretanto, os próprios autores ressaltam que as evidências ainda são bastante limitadas. Além disso, questões relacionadas à segurança, ao custo e ao acesso aos medicamentos continuam restringindo a utilização rotineira dessa estratégia.
A monitorização farmacológica não é recomendada
Ao contrário do que ocorre em algumas doenças inflamatórias intestinais, a diretriz não recomenda utilizar rotineiramente a dosagem sérica do medicamento ou de anticorpos anti-droga para orientar decisões terapêuticas em pacientes com axSpA que apresentam resposta inadequada.
Até o momento, não existem evidências consistentes de que essa estratégia melhore os desfechos clínicos.
Recidiva após suspensão do tratamento
Pacientes que permaneceram em remissão por tempo prolongado, interromperam o tratamento e posteriormente apresentaram reativação da doença devem reiniciar o mesmo medicamento utilizado anteriormente, desde que ele tenha sido eficaz antes da suspensão.
Nesses casos, a diretriz não recomenda trocar automaticamente de classe terapêutica.
IL-23 continua sem papel na artrite psoriásica axial
Mesmo com a expansão do uso dos inibidores da IL-23 em outras doenças inflamatórias, a atualização mantém a recomendação contra sua utilização na artrite psoriásica com acometimento axial.
Até o momento, essa classe não demonstrou benefício consistente nesse cenário.
Comentário Reumato Review
Esta talvez seja a seção que melhor demonstra a evolução do tratamento da espondiloartrite axial.
Durante muitos anos, a principal decisão após a falha de um biológico consistia apenas em escolher outro medicamento. Hoje, a diretriz amplia essa discussão e passa a considerar qual mecanismo de ação oferece maior potencial de benefício.
Assim, reconhece que a troca entre diferentes vias inflamatórias pode ser mais racional do que permanecer na mesma classe terapêutica.
Outro aspecto marcante é o reconhecimento, pela primeira vez, da terapia dupla. Embora essa estratégia deva permanecer restrita a pacientes altamente selecionados e a centros com experiência, sua inclusão representa uma mudança importante de paradigma. Além disso, reflete a crescente complexidade do tratamento dos casos mais refratários.
Por fim, vale destacar que a maioria dessas recomendações se apoia em evidências de baixa qualidade. Portanto, diante da falha de uma terapia avançada, o médico deve individualizar a decisão. Para isso, precisa considerar o fenótipo clínico, as manifestações extra-articulares, as comorbidades, o perfil de segurança e as preferências do paciente.
Manejo dos pacientes em remissão na Espondiloartrite Axial
O número de pacientes que alcançam baixa atividade da doença ou remissão clínica aumentou com as terapias atuais. Como consequência, uma dúvida tornou-se cada vez mais frequente no consultório: é possível reduzir o tratamento?
A atualização do ACR 2026 dedica uma seção específica a esse cenário. Além disso, reforça que a remissão não representa o fim do acompanhamento. Pelo contrário, ela oferece uma oportunidade para individualizar o tratamento e reduzir a exposição medicamentosa com segurança.
Pacientes com maior risco de progressão devem manter o tratamento
Mesmo sem sintomas, alguns pacientes apresentam características associadas à progressão estrutural da doença.
Nos pacientes com sindesmófitos e proteína C reativa persistentemente elevada, a diretriz sugere manter o tratamento farmacológico em vez de suspendê-lo completamente.
O objetivo é reduzir o risco de progressão radiográfica e preservar a função em longo prazo.
Os AINEs podem passar a ser utilizados sob demanda
Diferentemente da fase ativa da doença, pacientes em remissão não precisam manter o uso contínuo de anti-inflamatórios não esteroidais.
Nessa situação, a diretriz sugere utilizar os AINEs apenas quando necessário, de acordo com o reaparecimento dos sintomas.
Assim, é possível minimizar a exposição prolongada aos potenciais efeitos adversos desses medicamentos.
Biossimilares
Em pacientes com bom controle da doença em uso de um biológico originador, a diretriz sugere manter o medicamento de referência. Dessa forma, não recomenda substituir o tratamento por um biossimilar apenas porque a doença está controlada.
Entretanto, essa recomendação deve ser interpretada dentro do contexto em que foi elaborada.
Em muitos sistemas de saúde, a troca para biossimilares ocorre por razões econômicas ou administrativas. Além disso, estudos demonstram, de forma geral, que essa estratégia é segura.
Ainda assim, os autores recomendam manter o tratamento atual quando não existe uma indicação clínica para a substituição.
A suspensão abrupta não é recomendada
Uma das recomendações mais enfáticas da atualização é evitar a interrupção abrupta dos bDMARDs e tsDMARDs.
A diretriz não recomenda suspender completamente essas terapias em pacientes em remissão. Essa orientação se baseia no elevado risco de reativação da doença observado em diferentes estudos.
A redução gradual da dose é a estratégia preferida
Em pacientes com doença inativa e estabilidade clínica sustentada, a diretriz sugere uma abordagem mais conservadora.
Nesses casos, recomenda reduzir gradualmente a dose ou aumentar o intervalo entre as aplicações, em vez de manter indefinidamente a dose plena.
Essa estratégia busca equilibrar dois objetivos importantes. O primeiro é reduzir a exposição ao tratamento e aos seus potenciais riscos. O segundo é preservar o controle da doença sem aumentar de forma significativa o risco de recaída.
Além disso, o médico deve individualizar essa decisão. Para isso, deve considerar o tempo de remissão, as manifestações extra-articulares, o histórico de recaídas e as preferências do paciente.
Quando suspender o DMARD sintético?
Pacientes que utilizam um DMARD sintético convencional em associação com um bDMARD ou tsDMARD podem interromper o DMARD sintético quando a doença estiver controlada.
Essa recomendação está alinhada ao entendimento de que esses medicamentos apresentam benefício limitado no acometimento axial.
Além disso, sua retirada pode reduzir a carga terapêutica sem comprometer o controle da doença em muitos pacientes.
Não solicitar ressonância apenas para confirmar remissão
Na ausência de sintomas ou sinais clínicos de atividade, a diretriz não recomenda solicitar ressonância magnética apenas para confirmar a remissão.
O acompanhamento deve continuar baseado na avaliação clínica. Os exames de imagem devem ser reservados para situações com dúvida diagnóstica ou suspeita de reativação da inflamação.
Comentário Reumato Review
Talvez a principal mensagem desta seção seja que remissão não significa suspensão do tratamento.
Embora o desejo de interromper completamente a terapia seja compreensível, as evidências atuais mostram que uma parcela importante dos pacientes apresenta recaída após a retirada abrupta dos medicamentos.
Por esse motivo, quando houver interesse em reduzir a exposição ao tratamento, a estratégia mais segura é realizar um descalonamento gradual, sempre acompanhado de monitorização clínica cuidadosa.
Outro ponto importante é que a diretriz passa a tratar a remissão como um estado dinâmico.
Assim, o objetivo deixa de ser apenas manter a doença controlada. Também passa a incluir o uso da menor intensidade terapêutica capaz de preservar esse controle.
Na prática, isso reforça um princípio cada vez mais presente na reumatologia moderna. O tratamento deve ser individualizado não apenas para controlar a doença, mas também para minimizar a exposição desnecessária aos medicamentos ao longo do tempo.
Conclusão sobre a Espondiloartrite Axial
A atualização das recomendações do American College of Rheumatology (ACR) 2026 representa um importante avanço no manejo da espondiloartrite axial.
Embora muitos princípios fundamentais permaneçam inalterados, a nova diretriz incorpora conceitos que refletem a evolução do conhecimento sobre a doença e uma abordagem cada vez mais individualizada.
Entre as principais mudanças, destacam-se o reconhecimento da dor nociplástica como componente frequente da sintomatologia, a valorização das manifestações extra-articulares na escolha da terapia, a possibilidade de introduzir terapias avançadas mais precocemente em pacientes com pior prognóstico, o reconhecimento da terapia dupla em casos altamente selecionados e uma estratégia mais estruturada para o descalonamento do tratamento em pacientes em remissão.
Outro aspecto importante é a consolidação do conceito de manejo multidimensional da espondiloartrite axial.
O tratamento não se resume ao controle da inflamação. Também inclui a prática regular de atividade física, o acompanhamento da saúde óssea, a identificação de comorbidades, a avaliação da saúde mental e a educação do paciente.
Entretanto, é importante lembrar que uma parcela significativa das recomendações continua baseada em evidências de baixa ou muito baixa qualidade.
Por esse motivo, as diretrizes devem servir como instrumento de apoio à tomada de decisão, sem substituir o julgamento clínico.
As características individuais de cada paciente, as manifestações predominantes da doença, as comorbidades, os riscos associados ao tratamento e a decisão compartilhada continuam sendo elementos centrais na definição da melhor estratégia terapêutica.
Por fim, esta atualização deixa uma mensagem clara. O futuro do tratamento da espondiloartrite axial caminha para uma medicina cada vez mais personalizada.
Mais do que seguir algoritmos rígidos, o desafio é identificar o perfil de cada paciente e selecionar a estratégia terapêutica mais adequada para aquele contexto clínico. Dessa forma, torna-se possível equilibrar eficácia, segurança e qualidade de vida.
Considerações finais do Reumato Review
A diretriz de 2026 não promove uma mudança radical no tratamento da espondiloartrite axial. Entretanto, consolida diversas transformações que já vinham ocorrendo na prática clínica.
O foco deixa de ser apenas o controle da atividade inflamatória. Além disso, passa a contemplar uma visão mais ampla da doença, incluindo manifestações extra-articulares, dor nociplástica, saúde óssea, atividade física, comorbidades e preferências do paciente.
Também chama atenção a incorporação de estratégias antes pouco discutidas, como a terapia dupla em casos altamente selecionados e o descalonamento gradual das terapias avançadas em pacientes com remissão sustentada.
Embora muitas dessas recomendações ainda se apoiem em evidências limitadas, elas refletem a crescente complexidade do manejo da axSpA. Além disso, reforçam a necessidade de decisões individualizadas.
Em resumo, esta atualização reafirma um princípio essencial da Reumatologia moderna.
O melhor tratamento não é necessariamente o mais potente, mas aquele mais adequado ao perfil clínico, aos objetivos terapêuticos e às necessidades de cada paciente.
Esse continua sendo o maior desafio e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade no cuidado dos pacientes com espondiloartrite axial.
Referência


